Wilson
Tosta
RIO
- Militante do PT de 1980 a 1995, o editor César Queiroz
Benjamin, de 51 anos, situa no início dos anos 90,
com a atuação do então representante
da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Delúbio
Soares, no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o início
da mudança que levou o partido à atual crise.
De acordo com Benjamin, com repasses do FAT para sindicatos
Delúbio Soares fortaleceu a tendência Articulação,
da qual fazem parte o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva e o deputado José Dirceu (SP), que assim dominou
a máquina partidária.
Na
direção do PT, conta ele, Delúbio, com
aval do hoje presidente e do ex-ministro da Casa Civil, formou
com outros petistas o grupo conhecido como "os operadores",
cujo objetivo prioritário era dinheiro.
"Então
esse grupo consolida a sua hegemonia", diz Benjamin,
que não apresenta provas, mas alega que no PT "todos
sabiam" do que ocorria. Ele deixou o partido há
uma década, denunciando o que chamou de "ovo da
serpente", a entrada maciça na legenda de dinheiro
de bancos e empreiteiras. Hoje, acha que suas previsões
se confirmaram e avalia que Lula sabia das irregularidades.
"Eu, que já estava fora do PT, sabia. Como o Lula
poderia não saber?"
O
senhor acha que as previsões que fez ao sair do o PT
se cumpriram?
Vamos
situar a saída. Na campanha de 1994, eu era da direção
e da coordenação da campanha. E depois ficou
claro que tinha havido uma série de financiamentos
que desconhecíamos. De bancos e empreiteiras, para
a campanha do Lula.
Eram
financiamentos ilegais?
Do
ponto de vista partidário não eram legais. Porque
tanto a direção quanto a militância nunca
souberam disso. Tentei discutir na direção nacional,
não houve possibilidade, e resolvi levar ao Encontro
Nacional do PT de 1995, que era o primeiro na seqüência
da eleição. E aí ficou claro para mim
que já estava havendo no PT o início do esquema
que agora vem à luz, inclusive com os mesmos personagens.
Eu tive a percepção de que isso continha um
perigo extraordinário, que era a entrada no PT, pesadamente,
de esquemas de financiamento que teriam um impacto grande
na vida interna do partido. O Dirceu foi eleito para a presidência,
esse grupo que agora está nas manchetes assume cargos-chave,
e fica claro que o partido tinha tido uma inflexão
para pior. Ser direção passava a ser gerenciar
interesses. E saí, eu me lembro que no meu pronunciamento
no Encontro Nacional disse que estávamos diante do
ovo da serpente que ia nos devorar. Então, quando vejo
essa situação atual, tenho consciência
de que não começou agora e é a expressão
de uma prática continuada e sistêmica, que foi
introduzida através do Lula e do Zé Dirceu.
Pode-se
dizer que o processo de corrupção começou
em 1994?
Talvez
tenha começado antes.
Quando?
Há
notícias de processos semelhantes no Fundo de Amparo
ao Trabalhador. Não por coincidência o representante
da CUT no FAT chamava-se Delúbio Soares e se multiplicaram
notícias de esquemas de financiamento heterodoxos.
O
que houve?
Até
essa época, a Articulação, que é
o grupo do Lula e do Dirceu, ainda disputava a hegemonia no
PT cabeça com cabeça. A minha interpretação
é a de que esse grupo usou esquemas de financiamento
heterodoxos para fortalecer a Articulação. Porque
o FAT faz convênios com sindicatos. E assim fortaleceu
as finanças da Articulação, que passa
a manejar poder financeiro que é uma arma nova na luta.
Passa a ter capacidade de financiar candidaturas, trazer pessoas,
estabelecer pontes. Delúbio se tornou figura paradigmática.
Foi tesoureiro da CUT, foi para o PT como tesoureiro. E esse
grupo começa a ser conhecido como "os operadores".
Quem
eram Delúbio, Sílvio?
Silvio
Pereira, depois Marcelo Sereno... Esse grupo estabelece influência
crescente no PT e na CUT. Ser da Articulação
significava fazer campanhas muito caras. E se combina com
o esvaziamento da militância. Então esse grupo
consolida a hegemonia. Passa a operar em vários esquemas.
Santo André é um deles. Passa a procurar maneiras
de levantar dinheiro. E com a chegada ao governo federal as
práticas ganham escala e um potencial de crescimento
e visibilidade muito maior.
E
o presidente Lula nisso tudo?
O
Lula garante que foi traído, que não sabia.
Mas eu não acredito nisso. Foram práticas sistemáticas
durante mais de dez anos, do grupo que era mais próximo
do próprio Lula. Me parece completamente inverossímil
que ele fosse o único a não saber. Todos sabíamos.
Eu, que já estava fora do PT, sabia. Como o Lula poderia
não saber?
Qual
é o efeito disso?
O
principal legado é que a liderança do Lula dissolveu
por dentro os valores da esquerda. Se você pegar para
trás, Luiz Carlos Prestes morre pobre. Nunca tínhamos
tido uma liderança que disseminasse o antivalor.
O
que é isso?
O
grande legado do Lula é essa disseminação
do antivalor. O valor da esperteza, o valor de se dar bem,
de não estudar, ter orgulho de não estudar...
Eu diria que o Lula sempre foi um grande guarda-chuva para
os oportunistas no PT. Uma coisa é o partido ter um
líder que é honesto, honrado. Então,
quem quer ser picareta fica meio acuado. Pode até querer
ser picareta, mas não é a regra. Outra coisa
é você estar num ambiente em que veio de cima
o exemplo. Então, sob a liderança do Lula, eu
diria que se formou a pior geração de militantes
da esquerda brasileira de toda a sua história: pragmática,
oportunista, individualista, carreirista.
Foram
matando a militância?
Foram
matando a militância e fazendo a ascensão dos
carreiristas, dos oportunistas. Se você não tem
militância e quer fazer campanhas competitivas, tem
de ter dinheiro. No momento em que o PT optou por ser partido
da ordem, teve de ir beber nas fontes da ordem.
O
PT morreu?
Nem
um roteirista de terceira categoria imaginaria esse fim para
o PT. Nos últimos dias teve dólar na cueca,
teve conta nas Bahamas, festa com cafetina, carro importado...
Quer dizer, isso é roteiro de chanchada. Eu mesmo não
imaginaria que esse fosse o fim do PT.